A sete dias do Natal, aqui deixamos sete contos de Natal. Um por dia, uma história diferente. Podem ser histórias de Natais menos felizes do que se esperam... mas o Natal também é olharmos para a vida que nos rodeia.
O Velho Joaquim
O Velho Joaquim já não tem, nas pernas, a força de outros anos. A vida e a vinda da velhice transformaram-no num homem triste e, até, insuportável, lá na aldeia.
A Antónia, sua mulher, “refilava” com ele, um destes dias, sobre como havia de conseguir fazê-lo sair dali neste Natal. De facto, o velho Joaquim, já não sente a vontade de outros tempos de andar por ali, pela terra. E agora, com o frio invernoso a que se não se habitua, mais razões parece ter para se manter sempre ali, na sua horta, a cuidar dos animais, e a sentar-se em frente do televisor de hora a hora.
Na aldeia todos perguntam pelo velho Joaquim. Antónia, desde há muito se habituou a dizer que “por lá está”. Acabam, nesta altura do ano, por mandar os desejos de feliz Natal para o Joaquim e a Antónia acena com a cabeça e colocando um sorriso amarelo na boca enquanto se apressa a andar para a frente dizendo “passe bem!”.
O Joaquim era um homem alegre. O Natal era a época em que mais gostava de viver. Não pela abundância na sua casa, mas porque nessa época e, principalmente, no dia de Natal, o pai sempre tinha algo de especial para lhe dar. Ou um chocolate, que só nesta altura comia, ou então, no dia de Natal, sempre havia alguma comida a mais na mesa.
Quando casou, sonhou dar algo mais aos seus filhos. Mas depois de ter nascido a sua primeira filha, a Antónia nunca mais voltou a "parir".
Agora, neste Natal, a sua filha já vivia longe e a vida, para o velho Joaquim, já pouco tem de interesse. As recordações trazem-lhe tristezas de dores do passado, das dificuldades de viver, e de ter de, constantemente, sobreviver e muito pouco viver. A filha trabalha em Lisboa. É feliz. Está casada há 15 anos, mas nunca teve filhos.
A Antónia está ao telefone com a filha. “O teu pai, casmurro, ninguém o tira daqui para irmos aí, à tua casa, neste Natal, filha!... Sim, nesse caso, se puder ser… venham vocês cá, sim! Adeus filha”.
A noite de Natal está fria. A filha do Joaquim chegou há umas duas horas e estão a jantar, um bacalhau com couves que a Antónia preparou. A televisão está desligada e o Joaquim já refilou duas vezes por causa disso. Mas a Antónia disse-lhe que não havia televisão.
O Joaquim prepara-se para ir para a cama logo a seguir ao jantar. “Está com os azeites” diz Antónia à filha quando estão as duas na cozinha.
No final da refeição a filha pede ao pai para ficar mais um pouco. Tem que lhe dizer algo. “Pai, mãe. Já há uns anos que estou casada. Apesar de saber que era um grande desejo vosso, nunca tive filhos, simplesmente porque eu e o Jorge não queríamos trazer uma criança ao mundo enquanto não conseguíssemos organizar a nossa vida. Custou, mas finalmente as coisas parecem estar a correr bem e por isso…”, faz-se silêncio e apenas se ouve o velho Joaquim a respirar profundamente dando a entender que está impaciente ali: “Pai, Mãe. Estou grávida, vou ser mãe. E vocês avós”…
O Joaquim deitou o ar que tinha guardado nos pulmões de uma só vez e baixou a cabeça. No chão viu-se cair uma lágrima de saiu da sua face e no seus lábios abriu-se um sorriso enorme. “Obrigado filha, obrigado!”.
No dia seguinte alguém passou por ele na rua e lhe gritou: “Bom dia Joaquim. Afinal estás vivo??? Feliz Natal homem!”.
“Sim, afinal estou vivo!!!”
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18 de Dezembro de 2008
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