O Caixote
Colocou a caneca com o café acabado de fazer ao lado do computador portátil e preparou-se para começar a escrever o que restava dos dois capítulos que necessitava para terminar aquele livro. O editor já o tinha chateado porque o livro estava atrasado para a data prevista.
Lá fora chovia de uma forma tão discreta que quase lhe dizia que não fosse trabalhar. Entre o som das gotas que caiam no chão, vindas do telhado, quase que conseguia ouvir uma voz que lhe dizia: “Vá lá! Deixa-te disso! Afinal é noite de Natal. Não é hora de estares a trabalhar e muito menos ai sozinho em casa. Telefona a alguém. Faz-te convidado. Afinal ainda tens mãe e pai”.
Deu-se conta de que eram estas as palavras que ouvia, mas não vindas lá de fora, de entre o som da chuva, mas dentro da sua cabeça… do seu coração.
Mas que havia de fazer. Não estava preparado para conviver socialmente naquela noite. Os papéis do divórcio tinham chegado no dia anterior pelo correio e sentia que nada tinha feito, antes pelo contrário, por aquele casamento. Mas de quem mais sentia falta era do Carlos, o seu filho.
Pensou em ligar para a casa da sua (ex) mulher e falar com o filho. Mas a vergonha, falta de coragem ou simples casmurrice não o deixaram avançar.
E ali estava, perante aquele computador, sem inspiração para escrever qualquer palavra e com o café já quase frio na caneca.
Onde tinha falhado afinal? Porque é que aquele casamento não tinha resultado? Porque fazer sofrer uma criança?
Fazia estas perguntas na sua mente, a si mesmo, sem saber as respostas ou sem querer dá-las.
Aquela noite de há seis meses, em que discutira com Elsa era uma ferida no seu coração. Mas haveria razão, apesar de tudo, para se separarem por causa de uma simples discussão sobre nada? Ela dizia que não era a primeira vez que ele reagia assim, durante a sua vida de casados. Ele perguntava-se quando é que aquilo tinha acontecido.
Começou a descer as escadas. Já tinha desistido de acabar o livro. Afinal era noite de Natal. Pelo podia beber um wiskie enquanto pensava na sua vida.
Mas ao descer as escadas viu aquela caixa ali, ainda à porta. Sentiu uma vontade imensa de a abrir e espreitar lá para dentro. Eram algumas coisas da Elsa que ela ainda não tinha levado.
Aproximou-se e enquanto a olhava de cabeça descaída conjecturava o que poderia haver ali dentro que nunca tivesse visto.
Abriu-a por fim. Sentou-se no chão frio, perto da porta e abriu a caixa. Lá dentro havia pouca coisa. Algumas molduras que tinham fotografias do Carlos. A última foto apresentava-os a eles os três, numa foto que tinham tirado na sua última ida à praia, pouco tempo antes daquela discussão.
Continuou a vasculhar. Alguns livros de “bolso” da Elsa, um corta-unhas e uma lima para as mesmas, e uma série de papéis embrulhados. Abriu o rolo.
Desenhos do Carlos, que havia feito na escola. “O Pai”, aparecia por baixo de um boneco “feinho” ao lado “a Mãe” e “Eu”.
No fim do conjunto havia um envelope fechado. O nome que lá estava surpreendeu-o: Menino Jesus. A carta estava datada de 2003 e a letra era a da Elsa.
Abriu-a sem pensar. Lá dentro o texto era escrito, sem dúvida, pelo Carlos. As letras ainda mal “arranjadas” deixavam aparecer um pequeno texto.
“Menino Jesus. A minha “catecista” falou aos meninos de ti. Eu escrevo sempre ao Pai Natal mas a senhora Manela disse que o Natal existia por tua causa por isso achei melhor escrever a ti. Só te quero pedir uma coisa: Faz que os meus pais não briguem um com o outro.
Feliz Natal e espero que o Pai Natal te leve a prenda que tu lhe pediste”.
Deu por si a chorar. Colocou tudo dentro da caixa e levantou-se a chorar tristemente. Dirigiu-se para a sala, mas ainda não se tinha acabado de levantar do chão frio e tocaram à campainha.
Esperou um pouco. Quem seria àquela hora e naquela noite? Abriu a porta, por fim, e ainda não a tinha completamente aberto e sentiu alguém a agarra-se às suas pernas. Olhou para baixo: “Carlos! Que fazes aqui? Mas… mas…”
Do lado de fora viu a Elsa: “Ele não conseguiu passar o Natal sem ti… e eu também não.”
» Voltar a Opinião
» Voltar a Página Principal
20 de Dezembro de 2008
Subscrever:
Enviar comentários (Atom)
0 comentários:
Enviar um comentário